
Ele não tirou fotos em São Paulo, muito menos nasceu aqui, mas seu trabalho está exposto na cidade. Não precisamos olhar muitas obras de Henri Cartier-Bresson para saber que ele foi um dos grandes gênios da fotografia — se não o maior deles. E tudo isso está impresso no conjunto da obra, mas principalmente nos detalhes de cada uma delas, que só podem ser registrados por um verdadeiro observador, que está atento a tudo, pronto para aprender, inovar e, principalmente, se envolver com tudo aquilo que enquadra em sua câmera.
Todo esse trabalho, conforme ele mesmo explica no livro Momento Decisivo, começa pelo simples fato de pegar gosto pela fotografia e utilizar referências das mais variadas possíveis para produzir seu trabalho. Desde seus simples desenhos feitos as mãos nos horários de folga, desde o tempo de colégio, até mesmo as pinturas dos mais renomados artistas e filmes consagrados pelo cinema europeu e norte-americano.
Bresson decidiu usar a poderosa câmera Leica, da qual ele mesmo cita que “nunca mais se separou dela após conhece-la”. Ela é quem o ajudou a captar imagens tão magníficas. Tudo isso graças à tecnologia de telemetria, que permite o encontro com o momento decisivo, o qual ele intitula como o principal fator para ter o melhor registro. Por ser pequena e discreta, com poucos ruídos, facilitou o uso naqueles tempos. Ela ajuda Bresson a se envolver no ambiente a ser fotografado, sem que chame atenção, mantendo tudo do mesmo jeito, natural.
Outro ponto colocado por ele é a importância de persistir na busca pela imagem caso seja necessário, a não ser que ela seja muito espontânea, conforme ele mesmo explica: “O mundo é movimento e ninguém pode permanecer estático em sua atitude relativamente às coisas que se movem. Algumas vezes chegamos à foto em questão de segundos, mas ela poderia necessitar também de horas ou dias”.
Todos estes itens levantados podem ser encontrados nesta foto de 1955 que selecionei para análise. Dentre todos que observei no livro, achei uma das mais encantadoras. A começar pelo fato da expressão das pessoas, conforme explicava o próprio Bresson: “Existe coisa mais fugida e transitória do que a expressão de um rosto humano?”. Tudo isso é notório no rosto do bebê, desconfiado, mas feliz ao ver aquele que pode ser um amigo, vizinho ou pai. A expressão das mulheres também impressiona pela alegria, o rosto de expressão forte, bem traçado.
Embora esteja escondido, é possível até decifrar como seria o rosto do homem na foto, que possivelmente retribui a alegria do bebê. O cachorro é outro ponto interessante a ser observado, até mesmo ele foi pego em seu melhor momento, com uma expressão curiosa, de surpresa e, possivelmente, latindo ao ver aquela pessoa se aproximando da família. Mas espera aí, cachorro tem expressão? Vai ver que para Bresson, tem. Uma imagem captada com tantos detalhes, expressões e um envolvimento enorme do fotógrafo só pode ter partido de um clique genial como o de Bresson, dono de uma arte que é para poucos.
Mostra Henri Cartier-Bresson, no SESC-Pinheiros
Até 20/12; terça a sexta, das 10h30 às 21h30; sábados, domingos e feriados, das 10h30 às 18h30;
Rua Paes Leme, 195 – (11) 3095-9400
Ricardo Tadeu